
: rembrandt.
não me lembro de nada. fecho os olhos e só me vem um azul na cabeça. quando ele fala sobre elas, será que também fala de mim? pode ser que seja, pode ser que eu seja tudo aquilo que não é só azul. e quando o escuto falar me vejo ali, nas palavras, cores, sons. me vejo em cada uma das histórias que ele já viveu, como se ele ficasse buscando em mim pedaços, características de pessoas que já passaram pela sua vida. tento me lembrar. pergunto mais uma vez: será que ele me acha no meio das outras? acho que não posso ser nada além disso, além de hoje, além dessa mulher recém descoberta que vai tentando se encontrar nos espaços e pessoas mais aleatórias possíveis. o tempo não pode me transformar mais? não quero mais incerteza e azul. tento mais uma vez e não lembro de nada. acho que vou acreditar em todas as historias que não minhas, mas que falam sobre mim.
: borboleta e cigarra.
ela: as vezes é um jeito de falar, um jeito de olhar. cuida, porque depois que se quebrar é complicado para juntar. não me pergunta porque te aviso, simplesmente escuta e muda. pensa e faz agora tudo ser diferente. tudo ser como nunca foi...
ele fica em silêncio.
ela: o que me interessa é aquilo que tem cheiro, é aquilo que tem luz. precisamos de mais cores, de mais tempo! onde está você?! nem me lembro direito do seu rosto. nem me lembro de tuas mãos. vem. temos tempo. hoje só está começando!
ele levanta e caminha em direção a porta.
ela: preciso de você, preciso te olhar. cuida! cuida porque não sei se assim posso agüentar. tudo já é tão difícil, tudo já é tão sem cor. aqui tudo tem que ser novo. aqui tudo tem que ser nosso!
ele abre a porta.
ela: se você vai, pelo menos quando voltar me olha nos olhos e fala comigo de frente.
ele: tenho que ir, não sinto meus pés.
ela: me olha de frente! me sente! grita! grita! grita pelo menos para eu saber que você está ai!
ele sai.
ela agora não chora mais porque sabe que amanhã tudo será como hoje, tudo será novo e cheio de ontem.
não sei o que acontece com o tempo. muito menos o que acontece comigo. parece que eu e o tempo vamos nos confundindo, os sentimentos vão se misturando. aprendo a observar cada um dos detalhes alheios: do sorriso ao olhar, meu e do tempo. uma esperança vai se enquadrando e preenchendo. tornando algumas vontades mais fortes e de tanto querer, de tanto lembrar as coisas vão se diluindo, apagando... traçando um rascunho, uma linha cada vez mais leve e clara, que forma um circulo em torno deles. pronto! agora por conta de mim e do tempo já nem sei mais o que foi ontem, o que foi hoje. repito essa observação, que tenta ser profunda, dos detalhes alheios, do sorriso ao olhar. somos muito diferentes. não preciso de muito pra perceber isso. as imagens dos sorrisos e esse brilho constante no olhar, passam impressões distorcidas, vejo tudo aquilo que não é. somos, definitivamente
: cigarra e borboleta.
nem tudo passa. a verdade está nos olhos, à confiança está no aceitar, o carinho está no esperar e o respeito está no tocar. dei minha mão, dei meus olhos, dei meus sons, dei meu tempo. eis os meus pedaços. espero não ter errado, espero ter assim encontrado, nem bonito nem correto já que a vida é mesmo assim. te vejo, me enxergo. de dentro pra fora. te escuto, me vejo. te enxergo, me encontro. meu pedaço é teu pedaço, então guarda já que contaram que nada se abandona completamente.
flor no cabelo. olhar diferente. tudo novo. agora com todo novo e com uma vida cheia de silêncios. ela espera o tempo passar. espera que o amor venha, que a tranqüilidade volte, que o sol fique mais fraco. espera, mas só chega saudades, só chega aquilo que não é esperado. tomara que ela tenha um fim melhor do que os dos outros, tomara que o silêncio se transforme em música e que a vida continue, tomara que ande sem olhar mais para trás.